Artigo e Vídeo
Fazer o valuation de uma startup com estatística tradicional (Gaussiana) é como tentar avaliar o valor de uma máquina de loteria calculando o valor médio de todos os bilhetes emitidos. Para o investidor e para o fundador, a média é irrelevante; o que importa é a probabilidade e a magnitude do prêmio acumulado (a cauda longa). Este artigo ensina a simular não o bilhete médio, mas a dinâmica de como o prêmio cresce e quais barreiras podem impedir que ele seja pago.
Imagine que você precisa atravessar um rio. Um guia local lhe diz: "Não se preocupe, esse rio tem apenas 1 metro de profundidade, em média". Você confiaria e atravessaria?
Essa é a famosa frase de Nassim Taleb que ilustra perfeitamente o perigo de confiar apenas em médias. O rio pode ter partes de 10 centímetros e outras de 5 metros de profundidade! Na média, pode ser 1 metro, mas na realidade, você pode se afogar.
No Mediocristão, a vida é relativamente previsível. As coisas seguem padrões:
Exemplo de Fábrica: Se sua linha de produção fabrica 1.000 parafusos por dia, cada um com variação mínima
Exemplo de Restaurante: Se seu restaurante serve entre 80-120 clientes por dia, com raros extremos
Exemplo de Salários: Se a maioria dos funcionários ganha entre R$ 2.000 e R$ 6.000
Características do Mediocristão para Negócios:
Médias são significativas
Previsões geralmente funcionam
Risco controlável e previsível
"O normal" domina
No Extremistão, as regras são diferentes:
Exemplo de Startups: 95% fracassam, mas 5% valem mais que todos os outros juntos
Exemplo de Marketing Viral: 99% dos posts têm alcance limitado, 1% "explode" e gera 80% do resultado
Exemplo de Vendas: 20% dos clientes geram 80% da receita (Princípio de Pareto)
Características do Extremistão para Negócios:
Médias são enganosas
Um único evento pode dominar todos os resultados
"Cisnes Negros" (eventos raros e extremos) determinam o sucesso/falha
O passado não é garantia do futuro
Você está no Mediocristão se:
Seus resultados diários/semanais são consistentes
As variações são pequenas e controláveis
Uma máquina de medição estatística funciona bem
Exemplos: Manufatura tradicional, serviços locais, agricultura convencional
Você está no Extremistão se:
Sucesso depende de "acertos" raros mas enormes
Perdas também podem ser catastróficas
Um cliente ou produto pode mudar tudo
Exemplos: Venture Capital, criação de conteúdo, investimentos, moda, tecnologia
No Mediocristão (Gestão de Risco Tradicional):
Otimize processos continuamente
Use médias e projeções para planejamento
Diversifique, mas não exageradamente
Controle de qualidade é fundamental
No Extremistão (Gestão de Cisnes Negros):
Proteja-se dos extremos negativos: Tenha seguro, evite dívidas excessivas, não "aponte todas as armas para um único alvo"
Exponha-se aos extremos positivos: Crie oportunidades para "acertos grandes" (mas com custo limitado)
Não tente prever, mas prepare-se: Em vez de tentar adivinhar o próximo "viral", crie sistemas que possam capturá-lo quando acontecer
Pense em "opções reais": Invista pouco em muitas possibilidades, aumente o investimento apenas quando algo mostrar potencial
Uma startup desenvolve 10 produtos diferentes com pequenos investimentos. Nove falham completamente. O décimo se torna o próximo Instagram. Os 9 fracassos custaram R$ 1 milhão. O sucesso vale R$ 1 bilhão. A média é enganosa: parece que "a maioria falha", mas na verdade o negócio é extremamente bem-sucedido.
Produz 100 cadeiras por dia. Às vezes 95, às vezes 105. A qualidade varia minimamente. A média de produção (100/dia) é um bom indicador para planejamento de estoque e vendas. O risco de um dia produzir 1.000 cadeiras ou 0 é praticamente zero.
Produz 10 filmes por ano. A maioria tem lucro modesto. Um se torna um fenômeno global e gera 70% do lucro anual. Aqui, a estratégia é: controle os custos dos filmes "medianos", mas invista na possibilidade de acertar o grande sucesso.
Calcular "retorno médio esperado" em investimentos de risco extremo
Planejar crescimento baseado em médias históricas em mercados voláteis
Subestimar o potencial de perdas catastróficas porque "nunca aconteceu antes"
Esperar consistência onde não há
Ficar surpreso com eventos extremos que eram estatisticamente prováveis
Não se proteger contra possíveis desastres porque "são improváveis"
Antes de tomar decisões, pergunte: "Estou no Mediocristão ou no Extremistão?"
Mediocristão: Use estatísticas tradicionais, projeções, otimização
Extremistão: Foque em resiliência, opções reais, proteção contra extremos
Tenha um "colchão de segurança" para sobreviver a eventos extremos negativos. Em mercados Extremistanos, sobreviver é mais importante que otimizar.
Em ambientes de Extremistão, crie muitas oportunidades de baixo custo para possíveis grandes sucessos. Como diz Peter Thiel: "Você quer ser monopólio, não mais um competidor".
Quando alguém lhe disser "em média", pergunte: "E a distribuição? Quão comuns são os extremos?"
Nassim Taleb nos ensina que o mundo dos negócios não é uniforme. Algumas partes são previsíveis (Mediocristão), outras são dominadas por eventos raros mas extremos (Extremistão).
A maior lição: Conhecer em qual mundo você está operando é mais importante que qualquer técnica de gestão. Aplicar ferramentas do Mediocristão no Extremistão (ou vice-versa) é como usar um mapa da cidade para navegar no oceano.
Pergunta final para reflexão: Seu negócio está atravessando um rio de 1 metro de profundidade (em média), ou você pode estar pisando em águas muito mais profundas do que imagina?
Esta simulação demonstra visualmente esses conceitos. Observe como o gráfico azul (Mediocristão) forma uma curva suave e previsível, enquanto o laranja (Extremistão) tem longos períodos de calma interrompidos por saltos violentos que redesenham toda a escala. Assim são muitos negócios no mundo real.
Veja abaixo vídeo explicativo com implicação no valuation de startups